terça-feira, 24 de novembro de 2009

Domínio Público



grafiti

Fico fascinada com a criatividade e o modus operandi da nova geração de jovens contestadores. Os temas urgentes da minha adolescência nos anos 70 -   - guerras, ditadura, amor livre, drogas, etc – já não causam grandes mobilizações nos dias de hoje. Os assuntos e, principalmente, as formas de expressão mudaram radicalmente.

Um exemplo bem legal que tenho visto sair dos becos paulistanos e chegar ao grande público é o grafite. Se antes ele era considerado marginal, feio, um ataque à ordem e a limpeza das cidades (alguns ainda acham, mas esse é outro assunto), hoje, por meio de alguns talentosos grafiteiros, o Brasil está na elite dessa arte, com direito a capas de revistas e exposição em museus de arte contemporânea do mundo todo.

Já falei aqui sobre a ação de guerilha urbana ambiental de Os Sustentáveis e hoje quero mostrar pra vocês um trabalho muito legal que une intervenção urbana e gastronomia. São os stickers (adesivos) de receita. O arquiteto e artista plástico Alê Ferro cria mil objetos em sua Quitanda Urbana e desta vez resolveu levar um pouco de distração culinária às pessoas que esperam alguma coisa em algum lugar: o ônibus no ponto, um papo no orelhão ou o farol abrir na faixa de pedestres.

Ele ainda foi além na ideia e selecionou receitas simples para colocar em points mais sofisticados, como a Avenida Berrini, enquanto algumas das mais elaboradas (lula recheada com cebola caramelada, por exemplo) ficaram no popular ponto de ônibus.

Excelente ideia, não? Dá uma olhada nas fotos e me diz se você também acha.

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 18:38
segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Existe vida além do Michelin?

michellin

A revista americana New Yorker continuar existindo e sendo respeitada é um dos fatos que me dá esperança de que ainda há bastante gente no mundo que realmente gosta de ler e se inteirar sobre um assunto.

Quando esse assunto é algo que de alguma forma faz parte do nosso dia-a-dia, essa experiência de ler a New Yorker se torna uma dádiva; coisa imperdível mesmo. Quem gosta de gastronomia e lê em inglês, então, vai se deliciar com este texto aquipublicado no site da revista.

O que acontece é que, durante décadas, a profissão de avaliador de restaurante para o prestigiadíssimo Guia Michelin viveu cercada de uma confidencialidade digna de Scotland Yard: os críticos eram proibidos de revelar suas identidades até mesmo para os pais e cada reunião com a chefia do guia era um espetáculo que parecia cena do “Duro de Matar”, com ligações revelando o local do encontro minutos antes de ele acontecer. Tudo para manter algo que o método Michelin acha fundamental para a credibilidade da critica: o anonimato do avaliador.

Pois então, depois de anos de endeusamento na França e reconhecimento imediato e absoluto em outros lugares no mundo, como a Ásia (Tóquio, aliás, acaba de ser anunciada como a cidade com mais restaurantes de três estrelas no Guia Michelin), a publicação resolveu se arriscar no mercado dos Estados Unidos.

Após cinco anos publicando sua edição que avalia os restaurantes de Nova York, o Michelin não conseguiu desbancar nem a seção de gastronomia do New York Times, nem o Zagat – as duas grandes referências para os nova-iorquinos quando resolvem sair para comer.
Muita gente reclamava do afrancesamento exagerado das opiniões, que pareciam só ter olhos para bistrôs. Resultado: sob nova direção, o Guia Michelin mudou a política para sua investida americana. Abriu processo de seleção para ter apenas avaliadores nova-iorquinos trabalhando no guia da cidade (antes era gente deslocada da equipe européia de críticos), entrou no Twitter, passou a propalar seu método no próprio site e… permitiu que uma de suas avaliadoras concedesse essa excelente entrevista para um repórter da New Yorker, enquanto os dois almoçavam juntos no badaladíssimo restaurante Jean Georges, do Trump International Hotel.

A reportagem é deliciosa e aborda todos os aspectos imagináveis – da formação (caprichada) dos avaliadores à importância ou não do anonimato -, mas o que ficou na minha cabeça mesmo foi o lado bom de ver algo tão mítico e absoluto como as avaliações do Michelin ser, no mínimo, colocado em perspectiva. Bernard Loiseau, chef do francês La Cote D’Or, certa vez disse que se mataria se perdesse uma de suas três estrelas Michelin. Em 2003, época em que corria um burburinho de que a qualidade de seu restaurante havia decaído e que seu status de estrelado corria risco, Loiseau atravessava uma depressão. Acabou de fato se suicidando com um tiro na cabeça.

Já falei por aqui minha opinião sobre a função da crítica gastronômica para o consumidor. Da mesma forma, não dá para achar que exista algum sentido em alguém que só cozinha – ou só cozinha de uma certa maneira – para agradar a uma publicação, por mais respeitosa que essa seja e por mais embasado que seja seu método de avaliação. Cozinhar é uma arte; uma expressão prática de ideias e sentimentos. Portanto, se esses não forem legítimos, todo o conceito de gastronomia, boa ou ruim, vai direto para o ralo. Cozinha, antes de tudo, tem de ser sincera e autêntica: mesmo que algum critico possa não perceber isso. O público certamente percebe.

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 11:49
quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Beleza à mesa

muriqui
Comer não é, decididamente, uma experiência que se limita ao paladar. E não falo apenas dos aspectos mais óbvios, quer dizer, do aroma e do visual do prato que chega à mesa, mas de tudo o que literalmente cerca o período da refeição.

Não importa se você for o tipo de pessoa que não liga a mínima para decoração: mesmo que não perceba, o ambiente tem uma influência gigantesca em cada experiência por que passamos – e de forma especialmente intensa na de quem se senta para comer.

Criar uma ambiência que combine com aquilo que um restaurante pretende faz parte do negócio. Satisfazer a visão, o olfato e a audição do cliente é deixá-lo à vontade e relaxado, pronto para a próxima experiência sensorial, a gustativa.

Nessa busca deliciosa e interminável por objetos que eu acho capazes de transmitir o que eu quero, me deparei com umas peças que, quando vi pela primeira vez, senti como se tivessem sido especialmente feitas para receber minha comida ou enfeitar os lugares em que cozinho. São os produtos maravilhosos das meninas do grupo Muriqui Cerâmica.

As travessas, cabaças, cumbucas e outros apetrechos da Muriqui não têm nem um pouco de firula ou afetação: transmitem uma coisa autêntica e natural, mas ao mesmo tempo criativa, até difícil de explicar. Acho que o melhor mesmo é dar uma olhada no catálogo que está disponível no site delas.

A sensação de encontrar objetos assim, para mim, é quase como a de conceber uma receita nova: é, à sua maneira, um jeito de transmitir aos outros minha ideia sobre comida, sobre servir bem, sobre proporcionar um tempo agradável a quem me visita. Mesmo que parte da experiência fique assim, subliminar, tornando, discretamente, tudo mais especial.

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 08:37