quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Brincando de boneca no século 21


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Eu sempre digo e tenho motivos caseiros que confirmam: se comparadas às gerações passadas, estas novas gerações estão dando saltos gigantes com a carga genética que receberam dos pais. A tecnologia estressantemente mutante, a alimentação, a globalização… Não sei o que influencia mais, mas o fato é que eu e meu marido Nando vemos se tornar realidade – um pouquinho a cada dia – a vontade de todo pai de que os filhos sejam melhores do que eles próprios.

Para não parecer ainda mais mãe-coruja do que já sou, vou deixar a palavra para o meu amigo e talentoso escritor Eduardo Logullo. Com um texto maravilhoso, ele conta o que esperar da exposição Tokyo Dolls, que minha caçula Julia vai apresentar na Plastik. A partir do dia 1º de dezembro. Divido, então, com vocês um pouquinho do Mundo Encantado e Maravilhoso de Julia.

TOKYO DOLLS
JULIA PERNAMBUCO

Por Eduardo Logullo

julia_1 A pequena grande Júlia Pernambuco tem 13 anos. Treze? Sim e não. Sim, porque isso está escrito na sua certidão de nascimento. Não, porque ela está anos-luz na frente de qualquer garota adolescente da mesma idade. A diferença está no seguinte detalhe: Julia tem duas antenas eletromagnéticas na cabeça. Psiu: ninguém desconfia, nem sequer percebe a dupla de transmissores que sai do seu crânio. É que ela esconde os receptores de impulsos debaixo do cabelo. Pouca gente sabe disso. (E não se comenta mais o assunto, ok?)

Então, como estávamos falando antes, Júlia Pernambuco tem 13 anos e vai estrear suas fotografias em uma exposição individual no espaço mais antenado (êpa) da cidade. Quem conhece a Plastik Galerie entende o novo mundo, a nova ordem das coisas, as novas mentalidades. A loja/galeria Plastik é uma antítese de antiquário ou de brechó. Lá é proibido falar do passado, porque o passado só importa para quem passou do ponto, pra quem torrou os miolos fazendo coisas beges e coisas sépias e coisas chatas e coisas sonolentas. A Plastik é outro planeta, outra dimensão, outra visão.

Pois bem. Júlia Pernambuco começou a fotografar auto-retratos e imagens de seu dia a dia: esmalte das unhas, estilo da roupa, o prato de comida. Observando o pequeno grande mundo que nos embala. Sempre com um buzzzzzz na cabeça, ela passava horas sem fim sem fim sem fim sem fim no computador, esquecendo completamente que havia outras realidades fora da tela. E será que existem mesmo? Agora me bateu uma dúvida. Daí, nessa vida de mouse na mão, Júlia descobriu a toy art, aqueles brinquedos que não são feitos para brincar, que saem em tiragens limitadas e com mil diferenças entre cada modelo e que deixam os colecionadores loucos atrás de edições raras. A partir da toy art, ela encontrou as bonecas Blythes, que fabricantes japoneses haviam relançado em 2000 com imenso sucesso de vendas no mundo inteiro.

julia_pernambuco_-_revista_joyce A boneca Blythe surgiu em 1972, mas devido aos olhos grandes e desproporcionais, não agradou a ninguém — e ainda deu o que falar: assustou as crianças bobocas daquela época. A coitada foi retirada rapidamente de circulação, tipo brinquedo não-recomendado e voltou a ser produzida somente 28 anos depois, transformada em hit instantâneo graças a uma campanha da rede de lojas Parco. Em 2006, já existiam mais de 100 modelos da Blythe. Essa história toda é pra contar o quê mesmo? Ah, sim: que Julia Pernambuco fotografa com bonecas Blythe e também com bonecas Pullips, fabricadas pela empresa Groove. Estas viraram uma versão mais hype da Blythe.

Mas qual a diferença da boneca Pullip? Júlia responde: “Elas têm articulações, são mais posáveis para fotos, parecem modelos. Isso me conquistou bastante, porque mesmo tendo cabeça bem grande e desproporcional ao corpo, o cabelo é trocável (são perucas) e seu corpo permite várias possibilidades de customizaçãoâ€. As Pullips fazem parte do imaginário das garotas da primeira década do século 21. Garotas que cresceram lendo animes e mangás, que gostam de novidades fashion, que dariam a vida por um acessório. Cada boneca mede 30 cm, fecham e abrem os olhos, podem mirar qualquer lado.

Essas criaturinhas vieram da Coréia do Sul. Pullip em coreano quer dizer “folha†ou “jovemâ€. Hoje as bonecas ganham versões diferentes, com nomes bem atuais: Naomi, Princess Ann, Chelsea, Clarity, Angelique, Lala Comic, Sfoglia, Grell, Kaela etc. Elas possuem características “humanasâ€, claro. Nasceram do casamento de um diplomata coreano com uma decoradora italiana, têm sangue O+, fazem yoga, adoram ir a shoppings, têm 17 anos, são do signo de Gêmeos, têm um irmão de 15 anos que deseja ser jogador de futebol, estudam em bons colégios e, detalhe importante, moram em Milão. Tá? A Pullip não é qualquer Barbie, não senhora. A Pullip é fina, tem estirpe, sabe o que quer, é viajada. Mas não é metida. Só um pouquinho. A Blythe não tem história cheia de detalhes. Ela é a Blythe e ponto. A Pullip seria uma prima rica da Blythe. Dá para entender?

julia_2 O envolvimento de Julia Pernambuco com as bonecas foi tão grande que ela já dispõe de um estoque de mais de 1.500 fotografias, tiradas com sua Canon EOS Rebel T1I, usando diversas lentes (algumas ela pega emprestadas de seu pai, o fotógrafo Nando Pernambuco, que por sua vez é casado com a chef Carla Pernambuco). E como Julia trabalha essas bonecas? “Ah, depende da luz do dia e de como quero o resultado das fotos. Não tenho padrões. Quando chega uma roupa nova, misturo para dar personalidade diferente à boneca. Anita, por exemplo, é dócil e só usa estampas e flores. Gwen, é malvada, só usa vermelho, preto, cinza e muitas caveiras. Meg é hippie, veste roupas bicho-grilo com muito verde e brancoâ€.

Julia tem 13 antenas, ops, 13 anos e diz que essa forma de se expressar através de bonecas lembra coisas da sua infância, quando brincava com outras bonecas. Júlia ainda brinca com bonecas? “Eu brinco, mas de forma séria, vamos dizer. HAUHAUHUA.†Na verdade, ela é uma cientista espacial que faz experiências para transformar o DNA das Pullips. As bonecas estão sendo programadas para habitar um planeta roxo numa galáxia bem distante da Via Láctea e que só Júlia Pernambuco tem acesso.

Hdtevsjkqwcpqe klaqo0qyd w0’’2j=9’2pkojd’e8okn    wo       wb ueueuexymamauh9qw76ad???
– 0sdyh’!
– sd7?
– s6dtcvb12d12qwlkqwçq, OK!

JULIA PERNAMBUCO
TOKYO DOLLS

01/12/2009 A 30/01/2010
PLASTIK GALERIE

Rua Melo Alves, 459
De segunda a sexta: 11h/20h
Sábados: 11h/19h

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 09:01
terça-feira, 24 de novembro de 2009

Domínio Público



grafiti

Fico fascinada com a criatividade e o modus operandi da nova geração de jovens contestadores. Os temas urgentes da minha adolescência nos anos 70 -   - guerras, ditadura, amor livre, drogas, etc – já não causam grandes mobilizações nos dias de hoje. Os assuntos e, principalmente, as formas de expressão mudaram radicalmente.

Um exemplo bem legal que tenho visto sair dos becos paulistanos e chegar ao grande público é o grafite. Se antes ele era considerado marginal, feio, um ataque à ordem e a limpeza das cidades (alguns ainda acham, mas esse é outro assunto), hoje, por meio de alguns talentosos grafiteiros, o Brasil está na elite dessa arte, com direito a capas de revistas e exposição em museus de arte contemporânea do mundo todo.

Já falei aqui sobre a ação de guerilha urbana ambiental de Os Sustentáveis e hoje quero mostrar pra vocês um trabalho muito legal que une intervenção urbana e gastronomia. São os stickers (adesivos) de receita. O arquiteto e artista plástico Alê Ferro cria mil objetos em sua Quitanda Urbana e desta vez resolveu levar um pouco de distração culinária às pessoas que esperam alguma coisa em algum lugar: o ônibus no ponto, um papo no orelhão ou o farol abrir na faixa de pedestres.

Ele ainda foi além na ideia e selecionou receitas simples para colocar em points mais sofisticados, como a Avenida Berrini, enquanto algumas das mais elaboradas (lula recheada com cebola caramelada, por exemplo) ficaram no popular ponto de ônibus.

Excelente ideia, não? Dá uma olhada nas fotos e me diz se você também acha.

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 18:38
segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Existe vida além do Michelin?

michellin

A revista americana New Yorker continuar existindo e sendo respeitada é um dos fatos que me dá esperança de que ainda há bastante gente no mundo que realmente gosta de ler e se inteirar sobre um assunto.

Quando esse assunto é algo que de alguma forma faz parte do nosso dia-a-dia, essa experiência de ler a New Yorker se torna uma dádiva; coisa imperdível mesmo. Quem gosta de gastronomia e lê em inglês, então, vai se deliciar com este texto aqui, publicado no site da revista.

O que acontece é que, durante décadas, a profissão de avaliador de restaurante para o prestigiadíssimo Guia Michelin viveu cercada de uma confidencialidade digna de Scotland Yard: os críticos eram proibidos de revelar suas identidades até mesmo para os pais e cada reunião com a chefia do guia era um espetáculo que parecia cena do “Duro de Matarâ€, com ligações revelando o local do encontro minutos antes de ele acontecer. Tudo para manter algo que o método Michelin acha fundamental para a credibilidade da critica: o anonimato do avaliador.

Pois então, depois de anos de endeusamento na França e reconhecimento imediato e absoluto em outros lugares no mundo, como a Ãsia (Tóquio, aliás, acaba de ser anunciada como a cidade com mais restaurantes de três estrelas no Guia Michelin), a publicação resolveu se arriscar no mercado dos Estados Unidos.

Após cinco anos publicando sua edição que avalia os restaurantes de Nova York, o Michelin não conseguiu desbancar nem a seção de gastronomia do New York Times, nem o Zagat – as duas grandes referências para os nova-iorquinos quando resolvem sair para comer.
Muita gente reclamava do afrancesamento exagerado das opiniões, que pareciam só ter olhos para bistrôs. Resultado: sob nova direção, o Guia Michelin mudou a política para sua investida americana. Abriu processo de seleção para ter apenas avaliadores nova-iorquinos trabalhando no guia da cidade (antes era gente deslocada da equipe européia de críticos), entrou no Twitter, passou a propalar seu método no próprio site e… permitiu que uma de suas avaliadoras concedesse essa excelente entrevista para um repórter da New Yorker, enquanto os dois almoçavam juntos no badaladíssimo restaurante Jean Georges, do Trump International Hotel.

A reportagem é deliciosa e aborda todos os aspectos imagináveis – da formação (caprichada) dos avaliadores à importância ou não do anonimato -, mas o que ficou na minha cabeça mesmo foi o lado bom de ver algo tão mítico e absoluto como as avaliações do Michelin ser, no mínimo, colocado em perspectiva. Bernard Loiseau, chef do francês La Cote D’Or, certa vez disse que se mataria se perdesse uma de suas três estrelas Michelin. Em 2003, época em que corria um burburinho de que a qualidade de seu restaurante havia decaído e que seu status de estrelado corria risco, Loiseau atravessava uma depressão. Acabou de fato se suicidando com um tiro na cabeça.

Já falei por aqui minha opinião sobre a função da crítica gastronômica para o consumidor. Da mesma forma, não dá para achar que exista algum sentido em alguém que só cozinha – ou só cozinha de uma certa maneira – para agradar a uma publicação, por mais respeitosa que essa seja e por mais embasado que seja seu método de avaliação. Cozinhar é uma arte; uma expressão prática de ideias e sentimentos. Portanto, se esses não forem legítimos, todo o conceito de gastronomia, boa ou ruim, vai direto para o ralo. Cozinha, antes de tudo, tem de ser sincera e autêntica: mesmo que algum critico possa não perceber isso. O público certamente percebe.

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 11:49