domingo, 28 de junho de 2009

De boa na Gamboa

A primeira parada do Carlota Prenda Minha – por enquanto um projeto de videocasts de viagens e descobertas culinárias – foi em Santa Catarina. Fui fazer pesquisa na charmosa e paradisíaca praia da Gamboa. É a última do município de Garopaba, ao norte, e fica a cerca de 60 km de Florianópolis.

Apesar do clima mais frio, escolhemos essa época por ser de pesca da Tainha (junho e julho), o que é um capítulo à parte e vai render outro post! Mas vou colocar aqui as dicas para quem resolver passar férias por lá. Eu já estou pensando em quando vou conseguir voltar, dessa vez com mais tempo.

A Gamboa é uma vila de pescadores super pequena. Para vocês terem uma ideia, são cerca de 400 habitantes fixos que, no verão, chegam a 1.200. A estrutura é muito simples, engloba posto de saúde, escola municipal, dois mercados e quatro bares, todos no canto da praia, que tem cerca de 2 km – caminhar por ela é uma delícia.

O restaurante da Dezinha fica aberto o ano todo. Serve uma comida simples: arroz, feijão, salada variada, alguma verdura cozida, batata frita e, claro, frutos do mar. Na época da pesca da tainha, não dá para deixar de pedi-la. E o atendimento dela é muito atencioso.

O Canoas Bar fica na beira da praia, logo na chegada. Abre aos finais de semana, durante o ano, e todos os dias no verão. Serve petiscos e cerveja gelada, além de outras bebidinhas, e é ponto de encontro tanto de dia quanto de noite.

O Coiote, o outro bar da praia, quase não tem comida, mas tem sucos naturais, uma cachacinha de butiá que é uma delícia e um espetinho de camarão que também é ótimo. Este é o boteco dos pescadores, onde eles se reúnem para esperar os gritos dos olheiros da tainha e fazer fofoca. Aliás, soube que é inversamente proporcional: quanto menos peixe, mais fofoca! Vou contar mais da Tainha pra vocês logo mais…

Para ter informações sobre a estrutura da praia, pousadas, e outros serviços, dá uma olhada nos sites www.nagamboa.com.br e www.gamboaonline.com.br.

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 21:02
sexta-feira, 26 de junho de 2009

Simples como fogo

Transcrevo abaixo o texto que fiz para apresentar o livro “A cozinha da Alcobaça – receitas e histórias”, da Laura Góes. Laura é uma senhora de oitenta anos, encantadora, dona de uma pousada em Correias, perto de Petrópolis, chamada Alcobaça, cujo restaurante é uma parada obrigatória para quem estiver passeando pela Serra Fluminense. O livro é uma delícia de ler e as receitas são para todos. Você que é meu leitor aqui vai adorar. Se estiver no Rio, tem lançamento na livraria Argumento do Leblon dia 30!

Quem cozinha pela vida afora acaba por descobrir que lidar com panelas e alimentos nos leva a compreensões muito particulares da existência. Quem nos vê com o olhar desligado enquanto debulhamos uma espiga de milho, mal sabe. Aqueles que nos flagram escorrendo uma massa com a expressão mais séria do mundo, sequer imaginam em qual altura anda o nosso pensamento ao “dirigir um fogão”. Pois é. A filosofia da cozinha é intrigante, séria e prazerosa, por ligar pensamentos ao procedimento mais básico do ser humano: o de alimentar-se para viver.

Essa é a primeira impressão que temos ao ler os textos agrupados neste livro de Laura Góes, mulher com experiência quase espiritual sobre o ato de cozinhar. Como se arrumasse aspargos frescos numa cesta, ela organiza lembranças de fatos aparentemente corriqueiros, mas que logo adquirem uma grandeza espetacular, exatamente por sua tocante simplicidade. Hoje que cozinhar virou uma complicada “arquitetura” (ou briga de egos), as histórias de Laura trazem um conforto indescritível. Ela é simples como o fogo. Entretanto, sabemos quanto mistério, calor e perigo ocultam a combustão das labaredas. Ela é uma labareda.

Laura aproxima-se de qualquer situação como se levantasse a tampa do caldeirão, curiosa para ver se ali ainda existe algo que valha a pena aproveitar. Assim, em seis décadas de lembranças e aprendizados, surgem relatos de tias, avós, receitas escritas com caligrafias rebuscadas, espantos com a chegada dos eletrodomésticos nos States, os embates para atingir o ponto correto do cozimento, amizades com feirantes, a simpatia dos contatos em volta da mesa, a implicância com detalhes divertidos. Por exemplo: o pavor inicial na fase profissional de que rotulassem a sua comida de “caseira”, a proibição de chamar jantar de “janta”, as transformações onomatopaicas de receitas estrangeiras (Peras à Belle Hélène em “Peras Belelé”), as observações de quem come tudo (o cliente guloso que raspou o tacho de feijão com pedaço de pão), a parentada que inventa receitas mirabolantes, a descrição dos ambientes e dos tipos humanos… Enfim, frases de leituras deliciosas.

Fico feliz ainda por escrever a apresentação deste livro; em segundo, por saber que existem guerreiras da culinária brasileira como Laura Góes. Sim, embora ela comente (e indique) receitas de procedências diversas, sua dicção é brasileira, seu olhar é brasileiro, seu estilo é o refinamento das mil conexões brasileiras. Ela tanto gosta da polenta quanto do steak, defende o feijão preto e a harmonização dos vinhos (sem ser metida), vai da empadinha ao suflê, das compotas ao quebra-queixo, parecendo uma eterna aprendiza dos sabores, das cores, dos cheiros.

Quem além de Laura Góes teria propriedade, elegância e direito de falar que usava guardanapos gigantes, impecavelmente brancos? Alguém mais teria coragem de dizer que adora “panelas velhas” e que acha linda qualquer tranqueira relacionada aos afazeres da cozinha, mesmo quando são vasilhas surradas e sem cabos? Isso é pura poesia, isso é sabedoria.

“A Cozinha do Alcobaça, que bom, não se parece com nenhum livro de culinária contemporânea que encontramos por aí. Esses todos vão passar. O volume singelo e brilhante de Laura Góes tem um destino bem maior: ficar para sempre na cachola de quem gosta de comida. Para sempre, viu, Laura? E deixa o fogo aceso que nós vamos passar por aí.

Sua fã,

Carla Pernambuco

A cozinha da Alcobaça – receitas e histórias (Editora Terceiro Nome)
Autora: Laura Góes
Apresentação: Carla Pernambuco
Projeto gráfico: Mariana Newlands
Ilustrações: Jorge Videira

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 20:08
quinta-feira, 25 de junho de 2009

Um sonho movido a álcool

Não é todo dia que a gente atravessa cortinas de veludo vermelho. A experiência começa aí, com um certo frisson de não saber o que vai encontrar do outro lado. Um alto e bom som surpreende os ouvidos (como é que não transborda pra fora?) e a visão precisa ser aprumada para entender onde se está pisando. Um balcão iluminado flutua, atravessando o salão. Às costas do time de bartenders, garrafas iguais, sem rótulo e com líquido transparente dentro (será que estamos sonhando?). Não, é quase real. Estamos no SubAstor.

Sou amiga dos meninos da Cia. Tradicional de Comércio, nomão que eles dão para o guarda-chuva repleto de casas bacanas embaixo: Astor, Pirajá, Original, Bráz, Quintal do Bráz e Lanchonete da Cidade. Há uns dez anos eles me convidaram para um festival de pastéis no recém-aberto bar Original. Espertos que são, mal chegavam ao mercado e reuniam (para fazer pastel!) um timaço. Estavam lá a saudosa Wilma Kövesi, Bassoleil, Carlos Siffert, Edinho Engel, Sergio Arno, Alex Atala e se bobear ainda estou esquecendo alguém. Ali começava uma relação de admiração mútua, mesmo eu os encontrando tão pouco ao longo desses anos.

É um fato que de tempos em tempos eles conseguem botar inovação no mercado, quando parece que já se fez de tudo, e o fazem com muita qualidade – comida, bebida e ambientes de tirar o chapéu. Esse SubAstor, com um quê de speakeasy novaiorquino e um clima cabaré-rock’n’roll, confirma a trajetória do grupo. Outro querido, o competentíssimo arquiteto e cenógrafo Felippe Crescenti assina o projeto, que consegue transportar você para outro mundo sem ser fake. É confortável ficar lá, refastelada numa poltrona, bebericando drinques em taça Y e curtindo a música. Experimentei um que levava chá Earl Grey e biquei do pessoal que estava comigo outros – maracujá, manjericão, limão siciliano e outros perfumes. E álcool, muito álcool. Sugiro uma aguinha para refrescar as papilas de vez em quando. Tomei nota do meu preferido, chama-se Gipsy Martini, tem poire – aquela aguardente de pêra – na fórmula, e uvas também. Deliciosa mistura. As comidinhas também são ótimas. Lembro-me (um tanto vagamente, rsrs, desculpe, são os martinis) de um salmão curado na beterraba e de um tartare de lagostin. O som, a companhia agradável do Edgard, tudo o que chegava à mesa e a magia daquele cenário me proporcionaram uma noite sublime.

Parabéns, meninos. Vocês arrasaram, de novo.

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 17:58