quinta-feira, 30 de julho de 2009

Bacon com moderação

Vocês sabiam que a hipertensão é uma doença que afeta cerca de 20% da população adulta? E tem mais! Metade dos hipertensos desconhece a própria enfermidade. Porque ela é uma doença silenciosa, que pode evoluir sem sintomas por mais de 20 anos e, quando não tratada, causa lesões em diversos órgãos e sistemas, podendo levar a graves complicações e até à morte. E por que eu estou falando disso? Porque tirando alguns poucos fatores, como histórico familiar e idade, os demais dependem da adoção de estilo de vida saudável. Você já deve ter ouvido isso de um médico, mas vamos a eles: não fumar, controlar o estresse, fazer exercícios físicos regularmente e… alimentar-se bem. E é aí que eu entro.

Participo de um projeto chamado “Comida que cuida”, patrocinado por um laboratório. Já falei disso aqui antes. Também já discorri aqui sobre a tese de que é possível comer de tudo, desde que de forma sensata e comedida. Comer bacon frito uma vez por semana só pode fazer bem! Agora comer isso todos os dias, como os americanos fazem no café-da-manhã, obviamente não dá. Comer ou beber pouco para poder comer ou beber sempre, esse é meu lema. E para quando você está naqueles dias “não”, minha proposta é que você avance nos livros de culinária com a mesma fome de quem procura uma receita de espaguete à carbonara. Existem poucos mas bons livros de culinária saudável, procure na livraria mais próxima. E adote os pratos “politicamente corretos” não como dieta ou regime especial. Apenas se conscientize de que na maioria das refeições você deve pensar, sim, nas gorduras e calorias, para que você possa continuar tendo refeições deliciosamente gordas e fartas de vez em quando. E tudo com muito sabor, que fique bem claro! Abaixo vai uma receitinha para esses seus dias “não”.

Risoto de grãos e legumes (4 porções)

Ingredientes
½ xícara (chá) de trigo pré-cozido
½ xícara (chá) de arroz integral cateto pré-cozido
½ xícara (chá) de arroz selvagem pré-cozido
1 xícara (chá) de cenoura em cubinhos de 0,5 cm
1 xícara (chá) de abobrinha italiana em cubinhos de 0,5 cm
1 xícara (chá) de berinjela em cubinhos de 0,5 cm
2 colheres (sopa) de manjericão picado
1 talo de alho-poró
sal
pimenta
azeite extravirgem

Modo de preparo

Doure cada um dos legumes separadamente em frigideira antiaderente aquecida com um fio de azeite, sal e pimenta. Reserve-os.
Doure o alho-poró, junte os legumes, o manjericão e os grãos. Se preciso, regue com um pouco mais de azeite e acerte o sal e a pimenta. Sirva quente ou frio, como salada.

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 23:52
terça-feira, 28 de julho de 2009

O encanto das virgens

Num território formado por dezenas de ilhas, circular entre as virgens é como mudar de bairro em São Paulo. Só que no lugar dos carros, é claro, usam-se barcos.

Cada dia da minha estada nas Ilhas Virgens Britânicas (BVI, British Virgin Islands) cozinhei num lugar diferente – como disse em post anterior, a Necker foi o mais encantador. Os outros seis chefs estrangeiros e eu fizemos coquetéis, almoços e jantares sempre pensando em um diálogo com a culinária e os chefs locais. Produtores de vinhos de Portugal, Alemanha, Itália e Estados Unidos estavam lá, preenchendo lindamente os paladares.

A comilança começou no dia 15, com um coquetel feito por um grupo de 8 chefs locais na ilha Virgin Gorda, num lugar chamado Sugar Mill Ruins. O nome remete à arquitetura inspirada nos engenhos de açúcar do século 19. Foi um panorama de receitas caribenhas, variadas e apimentadas, baseada nos ingredientes locais, entre eles frutas tropicais, peixes e uma carne de cordeiro deliciosa. No dia seguinte, 16, rumamos para a já citada Necker Island, onde comemos um churrasco havaiano para lá de interessante, comando pelo chef Vikram Garg, de Waikiki. Minha moleza acabaria ali. No jantar daquele dia, o quinto de sete cursos seria por minha conta: uma Pot pie de cordeiro e queijo emmenthal. No dia seguinte, almoçamos na ilha Tortola, onde fica a capital das BVI, Road Town. Pra comer, um encontro entre as culinárias italiana e caribenha, encabeçada pelo chef Davide Pugliese, originário da Bota, porém radicado nas BVI. À noite, mão na massa de novo, desta vez com a Moqueca de lagosta com purê de mandioca (que eles chamam de Yuca) e chips de banana, um dos três pratos principais do jantar. Modéstia às favas, eles babaram na minha moqueca. Dia 18, nova ilha, Guana, novo jantar, onde fiz uns aperitivos. Pensam que acabou? Ainda não. Domingão, dia 19, almoço na Fat Virgin e jantar na Mooney Bay Estate, uma pousada de apenas seis lugares e uma praia todinha pra ela, só acessível por barco. Deslumbrante. Para combinar, preparei um refrescante atum com tartare de manga. Ah, as sobremesas de todos os dias ficaram a cargo da chef-pâtissière americana Michele Mitchell, do centenário Hotel du Pont, um dos mais luxuosos dos EUA, situado em Wilmington, Delaware.

Como vocês perceberam, não foi pouco o trabalho para os CCC (leia-se eu, Carol Brandão e Carlos Siffert), mas adorei ter participado do BVI Winemakers Dinners. Se a intenção era promover o lugar como atração turística, pra mim, funcionou. Quero muito voltar e ficar uns dias por lá, de papo pro ar. Conheço várias praias brasileiras maravilhosas, mas mesmo quem já foi a Fernando de Noronha vai se surpreender com a cor daquele mar: um intenso e hipnótico azul turquesa.

E para quem se empolgou e estiver planejando conhecer as virgens, aqui vão duas dicas de restaurantes: WaterMark Restaurant e The Dove. Ambos ficam em Tortola e são ótimos para desfrutar dos produtos locais. Para hospedagem, o melhor custo-benefício você encontra alugando um chalé ou casa no Guavaberry Spring Bay, um conjunto de vilas na ilha Virgin Gorda. Para mais informações desse pequeno paraíso de Sua Majestade Rainha Elizabeth II, visite www.britishvirginislands.com

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 21:40
domingo, 26 de julho de 2009

O mundo é dos frugais

A ONU divulgou recentemente que o número de indivíduos que passam fome no mundo deve ultrapassar, neste ano, pela primeira vez na história, a marca de 1 bilhão. Isso significa quase uma em cada seis pessoas. Segundo a organização, uma das justificativas para um cenário tão alarmante é a crise que aumentou o desemprego e reduziu o poder de compra da população.

Essa crise não afeta apenas essas pessoas pertencentes às camadas mais baixas da pirâmide. As consequências estão sendo sentidas por todos, independente da classe. É óbvio que nada se compara a seres humanos que estão lutando por um prato de comida em busca da sobrevivência. No entanto, não pude deixar de pensar num novo perfil de consumidor que está surgindo e que tem chamado minha atenção. Não tem nada de científico, tampouco comprovado. Mas eu os chamaria de frugais.

Os frugais têm mais criatividade que dinheiro. São mais antenados ao mundo e responsáveis com o meio ambiente e as questões sociais. E, coerentes que são, prezam o bom gosto, mas não se submetem a preços exorbitantes, seja para decorar a casa, se divertir ou comer. Valorizam a simplicidade.

Nas casas desses “frugais”, salta aos olhos a união de funcionalidade, conforto, beleza, economia, humor e eficiência. São pessoas que preferem uma boa festinha caseira, com amigos queridos em volta de uma mesa, num tom mais intimista. E são aquelas que, quando saem pra comer, fazem questão de ser bem atendidos, querem passar por uma experiência incrível e, claro, esperam pratos bem elaborados, com produtos de primeira. Elas querem uma refeição de bom gosto, gourmet, sofisticada sem ser metida, despojada sem ser simplória. E, obviamente, que não pese no estômago. Nem no bolso.

Acredito piamente na tendência gastronômica que tem por finalidade atender a essa demanda. Quem disse que comer bem é sinônimo de gastar muito? A profissionalização do setor de gastronomia, com a abundância de opções, levou os clientes a passarem por um processo de amadurecimento. E, no alto de sua maturidade, o público não prioriza o que é caro, mas o que tem qualidade. Uma separação mais do que saudável para todo mundo e que, em tempos de crise econômica, parece ainda mais coerente.

Digo tudo isso porque fazer alguém se sentir especial (e quem não gosta disso?) sem mandar uma fatura estratosférica não é só possível, mas necessário. Nos restaurantes, nota-se claramente uma tendência nesse sentido, infelizmente ainda mais forte fora do Brasil. E em outros segmentos também. Peguemos, por exemplo, a loja Zara, que consegue integrar o espírito da exclusividade na sua estratégia, sem cobrar horrores por isso. Embora tenha seus produtos feitos em grande escala, a companhia utiliza um sistema de distribuição no qual as peças são divididas por um número infinito de lojas por todo o mundo, limitando o número de artigos em cada país e, atingindo, dessa maneira, uma aura de exclusividade. Acho que esse é o segredo. Colocar a cabeça para funcionar, encontrar soluções inteligentes e cativar um público cada vez mais exigente e consciente. O desafio está lançado.

POSTADO POR CARLA PERNAMBUCO ÀS 02:36