O cheiro do pão assando

Da cozinha saem cheiros incríveis, da cebola dourando no azeite, da carne ganhando o ponto na grelha, das especiarias. Mas, vamos combinar que tem um em especial que conforta a alma de todo e qualquer ser humano como nenhum outro? O cheirinho do pão de cada dia assando no forno… hummmm. É um cheiro que inunda a nossa mente com boas, gostosas e quentinhas memórias, não é?

Pois este alimento milenar está presente na maioria das culturas – com seus sabores, volumes e formatos próprios, em cada cantinho desse mundo. Ao mesmo tempo, é muito particular a relação de cada povo com seu pão, assim como a nossa. A sua memória olfativa e visual de um belo pão fresquinho pode muito bem ser diferente da minha.

Quando menina, eu tinha fascínio pela química da comida, por aquela transformação que eu via acontecer a partir da farinha de trigo e da água… E não é curioso pensar que, nessa história de seis mil anos, os ingredientes sejam praticamente os mesmos em todo lugar: a velha e boa farinha – normalmente a de trigo –, água, por vezes fermento, sal e algum óleo.

Outro dia mesmo, caiu em minhas mãos uma Revista da Folha do ano passado. Nela, encontrei uma matéria ótima sobre quase 20 lugares onde encontrar pães típicos de vários países em São Paulo (para ver como nada é por acaso, pois eu já andava com a idéia deste post na cabeça há um tempo…). Fiquei encantada e deliciada com a leitura, a partir da qual descobri, entre outras coisas, que o chef do Café Pittoresque, que vende pão russo preto tradicional por encomenda, sempre beija a massa antes de levá-la ao forno! Soube também que, na francesa Le Vin Boulangerie, alguns clientes tiram até fotos das guloseimas, que veem sendo feitas através de uma parede de vidro, deixando o pessoal da cozinha tímido. Pois não é mesmo fantástica essa nossa relação afetiva e de fascínio com o pão?

Fiquei pensando também no sagrado que o pão tem para alguns povos… E não é que uma amiga minha, que está passando uma temporada na Filadélfia, me mandou um e-mail – justamente esta semana – contando dos hopis, uma nação indígena dos Estados Unidos? Em uma visita ao Penn Museum, museu de Arqueologia e Antropologia de lá, descobriu que o pão Hopi, chamado de piiki, é feito com a farinha do milho, alimento sagrado para a tribo. Ocorre que eles teriam recebido um tipo de milho, o azul, quando o mundo foi criado – daí a divindade do cereal. Há ainda o vermelho e, para nós dessas bandas de cá, o bom e velho milho amarelo. Adorei a informação!

Também é interessante pensar que, assim como os temperos e as formas, os hábitos em relação ao pão variam muito. Se para o paulistano nada é mais óbvio que comer um pão francês na chapa de manhã na padaria da esquina, para o carioca isso já não é tão óbvio assim. E os nomes? Impressionante como variam. Experimente o visitante a Recife pedir uma tabica e ele terá diante de si uma baguete! Baguete, que perdeu um “t” quando veio pra cá, é uma herança da França, onde reina. Como reina por aqui o pão francês, que leva esse nome porque, quando sua receita chegou ao Brasil, há cerca de 100 anos, era esse o tipo predileto dos franceses, e não a baguete. Já na minha terra, o Rio Grande do Sul, pão francês se chama é cacetinho. Um pouco mais acima, em Floripa, ele já vira pão de trigo. E, bem mais para cima, em Fortaleza, pão de sal.

Só uma coisa parece não mudar – e isto também li em alguma revista, só não lembro bem qual: é fato que, entre todos os alimentos do mundo, aquele do qual o ser humano nunca, nunquinha mesmo, se enjoa é justamente o pão!

Enfim, diante dessa miríade de nomes, formas, sabores e aromas, chego a uma conclusão: não há na história da gastronomia alimento mais simbólico que o pão. A união à mesa, o pão que dá vida e da liga ao corpo e à alma…

E aí, já comeu seu pãozinho hoje?

Se não, que tal duas receitinhas para celebrar a dádiva deste alimento? Aí vão elas: um pão de ervas (do livro “Desejo – as 80 receitas mais pedidas do Carlota”) e uma trança doce (do “Carlota – balaio de sabores”).


Pão de ervas

Ingredientes
600 ml de água
2 ovos
½ xícara de óleo
2 colheres de sopa de açúcar
1 colher de sopa de sal
50 g de fermento biológico
½ xícara de folhas de hortelã
½ xícara de folhas de salsinha
½ xícara de folhas de manjericão
1 cebola
1,2 kg de farinha de trigo

Preparo
No liquidificador, bata a água, o sal, o açúcar, o fermento, a cebola, as ervas e o óleo. Despeje esse líquido em uma bacia grande e junte a farinha, sovando a massa com a mão até ficar lisa. Unte 3 formas de pão de forma com azeite e divida a massa em três partes iguais, enrolando e acomodando nas 3 formas. Cubra com plástico e deixe crescer novamente. Asse à temperatura de 160°C por aproximadamente 20 minutos ou até dourar. Rende 6 porções.

Trança de leite
(com semente de papoula)

Ingredientes
1 lata de leite condensado
1 lata de água
10 g de manteiga sem sal, amolecida
5 ovos
50 g de fermento biológico
1 colher (sopa) de sal
1,2 kg de farinha de trigo (aproximadamente)
1 gema batida para pincelar
Sementes de papoula para polvilhar

Preparo
No liquidificador, bata a água, o leite condensado, o fermento, o sal e a manteiga. Despeje o líquido em uma bacia, junte os ovos e coloque a farinha aos poucos, sovando bem para formar uma massa bem lisa. A massa deverá desgrudar das mãos, mas ficar macia e leve. Deixe crescer coberta com um pano úmido em lugar aquecido. Divida em 4 partes e faça um rolinho de 40 cm de comprimento com cada pedaço. Trance as 4 tiras. Coloque em assadeira untada com manteiga, pincele com a gema batida misturada à 1 colher (sopa) de água e polvilhe sementes de papoula. Deixe crescer até quase dobrar de tamanho. Leve ao forno (160°C) por aproximadamente 20 minutos ou até ficar bem dourada. Rende 8 porções.

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9 Responses to “O cheiro do pão assando”

  1. Roberto Says:

    Parabéns pelo blog, é inspirador!
    bjs!

  2. Noé Says:

    Também adoro o cheiro do pão italiano, mas não o do fermento de pão caseiro…por que será?
    Bom post!

  3. Rosemary Says:

    Voce leu meus pensamentos!
    Adoro pão…e quando a fome aperta mesmo…só consigo pensar em pão fresco.
    O cheiro do pão assando reconforta a alma e desperta os sentidos…uma dádiva divina!
    Abração!!!

  4. Sonia Says:

    Adorei ler mais um pouquinho sobre pães.
    Irei testar as receitas.

  5. Thais Barletta Says:

    Hummm…tá ai, uma coisa que me preenche, me deixa feliz de verdade, fazer pão, amo mexer com massa do pão e ver que ela se transforma num alimento tão rico e nutritivo!!!
    Uma indicação, no site http://www.dayluz.com.br, associação de alimentos orgânicos da qual sou voluntária, tem a história do trigo, interessantíssima, depois que li nunca mais comi sem pensar em tudo que envolve para que os alimentos chegem até nós!! Vale a pena!!
    Um abraço,
    Thais

  6. Thais Barletta Says:

    Quem quiser ir direto ao link da história do trigo…acabei postando só o site no outro post…http://www.dayluz.com.br/dayluz/index.php?idConteudo=23&idTipo=13

  7. Raquel Says:

    Fiz esse pão, é maravilhoso principalmente para comer com patês, creio que se colocar um pouco de leite, ele fica mais macio, fiz só com a água e ficou um pouco ressecado, mas o sabor é simplesmente delicioso.

  8. carla Says:

    Que boa notícia!!
    Vou tentar com leite.
    Obrigado pela dica.
    bjs

  9. cleide Says:

    eu querro muito…}muito…}muito…} ter assam por favor

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