Dilema pisciano

Todo mundo que me conhece sabe que fico muito atenta a tudo que pode interferir na ética da minha profissão. Uma das coisas que todo chef quer e se orgulha é ter os melhores ingredientes e as melhores receitas para que você tenha uma experiência incrível na hora de comer. O que muita gente não sabe é que hoje, mais do que nunca, temos enfrentado alguns dilemas éticos na escolha da nossa matéria-prima.

O número de habitantes da Terra cresceu, o consumo explodiu e os nossos recursos ainda não acompanharam esse movimento. Um ótimo exemplo disse é o peixe. O que me inspirou a fazer este post foi um ensaio que li no caderno The New York Times, da Folha de S. Paulo (só para assinantes), em que o Mark Bittman, autor de livros como “A Comida Importa: Um Guia para o Comer Consciente” e “Peixes: O Guia completo para comprar e cozinhar”, descreve com muita lucidez suas inquietudes sobre a questão do consumo e do perigo de extinção de algumas espécies de peixes.

No ensaio, ele nos apresenta um panorama curioso: se, por um lado, a alternativa mais sensata seria escolher os peixes criados em viveiros, para não enlouquecer pensando em quais espécies podemos ou não comprar sem culpa, por outro, a piscicultura também é ambientalmente discutível, já que em alguns casos são necessários quilos de peixes selvagens como ração para poder produzir, por exemplo, meio quilo de salmão de viveiro.

Dá pra ver que estamos num beco sem muita saída, né? Não comer peixe é a solução? Segundo Bittman, a resposta está longe de qualquer decisão radical. Ele acredita que no futuro os pesqueiros adotarão práticas de manejo menos agressivas e que, com isso, a oferta de peixes voltará a ser boa e sustentável.

Como curiosa que sou, fui atrás do site do programa Seafood Watch, citado no ensaio, e fiquei maravilhada de ver a organização dos dados deles em um guia supercompleto. Para cada espécie de peixe, eles têm informações de procedência, de como é criado, o nome do peixe nos mercados e, o melhor, se devemos evitá-lo ou se ele é uma boa escolha de consumo. O primeiro da lista dos mais pesquisados é justamente o salmão. Dá uma olhada!

O problema é que o guia elaborado pelo aquário de Monterey Bay traz dados, basicamente, de peixes encontrados perto dos Estados Unidos. Mas, como já tratei do tema algumas vezes aqui neste blog, acabei descobrindo algo bem interessante por meio de um comentário no post “Não verás salmão nenhum” : um guia muito legal, feito pela bióloga Lucia Malla, que ajuda na escolha correta de peixes e frutos do mar aqui no Brasil mesmo. Ela dá nove dicas, como, por exemplo, a de evitar cação, abusar das tilápias e comprar lagosta somente entre maio e dezembro.

Depois de tudo isso, fico com a frase final do ensaio do Bittman: “Penso que comer peixe é um luxo. Não como diariamente ou em grande quantidade, mas de vez em quando e com apreço.”

Tags: , , , ,

3 Responses to “Dilema pisciano”

  1. Daniel Magalhães Says:

    Carla, vasculhei o Sea Food Watch e sem dúvida é uma ótima ferramenta para o consumo responsável. No entanto, percebi uma vertente protecionista ao procurar por camarão e perceber que não se recomenda camarões importados. Esse é um fato interessante levando-se em consideração que as exportações de camarão brasileiro foram objeto de uma ação anti-dumping pelos produtores americanos no ano de 2003. Em uma análise mais ampla, o Sea Food Watch no geral não recomenda peixes e frutos do mar importados. Importado, necessariamente, no nosso dicionário, não quer dizer ambientalmente irreponsável, entretanto, se eu não estiver vendo coisas demais, o site se presta a uma outra finalidade que não, unicamente, a de orientar o consumo. Excetuando-se esse fato, a recomendação é excelente, inclusive baixei o guia em pdf.

  2. Carlinhos Lima Says:

    Pois é, Carla…

    Na realidade o assunto comida é muito vasto. Há muito que se debater sobre isto mas eu acho que os modismos acabam levando – de uma certa forma – para este caos atual.

    Veja o atum: virou moda comida japonesa e lá vem a avalanche de atuns…

    Veja o salmão: virou moda e em todos os restaurantes “temqueter” atum…

    Será que não seria hora das sardinhas, pescadinhas, robalos, corvinas, tainhas, pescada e tantos outros?

    Diversificando quem sabe a gente consiga deixar um pouco estes ameaçados encontrarem espoaço para sua sobrevivência?

  3. carla Says:

    A idéia é esta!Diversificar e moderar o consumo,para sobrar para próximas gerações!
    Obrigado pelo comentário.
    abs,
    Carla

Escreva seu Comentário